RELATOS DE UMA CAMINHADA
MARCHA DE FIM DE ANO 2009
TUA
Um mar de neblina, uma bruma carregada de triste simbolismo, cobria o vale do Tua quando nos aproximávamos de Brunhêda, onde iríamos dar início à caminhada que constituiu a Marcha de Fim de Ano 2009, no domingo 27 de Dezembro.
Foi debaixo desse carregado nevoeiro que 10 nos juntamos no largo central do povo a mais 2 que vieram de Mirandela pelos seus próprios meios e nos lançamos à tarefa proposta, calcorreando as ruelas para lá, para cá e para lá, até encontrarmos o caminho que nos havia de levar a uma plataforma sobre o vale, decidindo, após a primeira paragem retemperadora, avançar por caminho largo num anfiteatro de meia encosta entre vinha, mato e penedia.
Em contracurva iniciamos a descida para o rio, que se lobriga um pouco mais à frente, envolto na sua dramática bruma.
A linha de comboio há-de apanhar-se atravessando e socalcando uma vinha quase abandonada.
A linha de comboio e o rio! Magníficas paisagem e obra do engenho e trabalho árduo do Homem, ameaçadas pela insensibilidade e insensatez do homem, que prometeu a sua submersão por uma aberrante, deslocalizada e destruidora albufeira.
Percorremos um troço da linha, quem sabe pela última vez, até à estação de S. Lourenço, de onde subimos às termas para o ambulante repasto principal. Outrora alvo de romarias de padecentes, em busca de cura para as suas maleitas, é agora um conjunto de casas abandonadas, com excepção de duas arranjadas e até equipadas, que talvez esperem a terrível subida das águas para daí tirar algum proveito… Ainda se sente o cheiro sulfuroso, ainda sai da casa dos banhos o vapor da água morna, mas isso já não serve quase para nada. Lourenço, o santo, está representado em escultura de granito imponente e é um toque de quase surrealismo naquele ambiente.
Aí conhecemos um peruano de grandes cabelos e grossas barbas que, sem abrigo, solitário, aproveita casa abandonada, em parte sem tecto e quase sem janelas, para sua morada e ateliê. É o único “morador” permanente de S. Lourenço. Tem banho quente todos os dias, ao pé e à borla (afinal sempre serve para alguma coisa, a água…).
Após o repasto começamos a subida que nos há-de levar a Pombal de Ansiães, 240 m de desnível, o maior do percurso. A maior parte dela faz-se na fantástica calçada de S. Lourenço, praticamente intocável.
A sua cronologia é desconhecida, mas uma coisa é certa, a pedras que pisamos é a mesma que construiu os harmoniosos muros de abrigo das cepas de vinho que a ladeiam. A ladeira é íngreme, mas nada de mais para montanheiros calejados que sobre ela se impressionam apenas por ser tão espectacular…
De vez em quando, num fôlego, olhamos para trás e apreciamos o vale, as vinhas, os montes e… lá mais ao longe, vigilante, a Sra. da Cunha.
No cimo espera-nos uma sinalização cuidada da estrada de pedra, e um estradão plano que conduz a Pombal. Um último olhar, triste, ao condenado vale, que nos parece hoje também, e ainda mais, triste, e vamo-nos.
Em Pombal, paramos no Café do Centro Social e Cultural, para um café e um merecido cálice de generoso.
Depois é um fugir do alcatrão, por entre o monte, até Pinhal do Norte e daí, até à descida que nos há-de levar ao ponto de partida através de um caminho entre pedras até um alto de onde se vê Brunhêda em baixo. A nossa visão, apesar da neblina, regala-se mais uma vez com uma paisagem sublime, saudando as distantes cristas da serra de Passos e do Monte Faro.
Depois da descida decide-se por uma variante mais longa que dá para uma vinha às voltas, com obstáculos, um caminho largo e então uma rápida aproximação pelos trilhos já nossos conhecidos até Brunhêda.
Tivemos neblina, escapamos à chuva, até tivemos umas nesgas de sol, descidas e subidas, 7 horas de marcha com pouco mais de 1 h de pausa, 19,5 km de “distância” (em montanha não há distância…) e um montão de sensações agradáveis, companheiras e fortes.
As mais intensas de todas as sensações ficaram no vale do Tua! Até sempre!
Salustiano Lopes
Informações técnicas
Troço 1 – Brunhêda – Tua
Troço 2 – Linha – S. Lourenço
Plataforma, anfiteatro, vinha até ao Tua
Troço 3 – S. Lourenço – Pombal
Calçada, vinhas que eram…
Troço 4 – Pombal – Pinhal do Norte
Troço 5 – Pinhal do Norte – Brunhêda
Fugindo à estrada, com estrada, até à descida, com variante e vinha, regressando ao entroncamento da partida.
Altitudes aproximadas (m):
Brunhêda – 320
Tua – 180
S. Lourenço – 220
Pombal – 460
Pinhal do Norte – 460
km GPS: 19,5